Think Blue cria peças a partir de jeans descartados

Designer Mirella Rodrigues contou ao Sou Moda como é seu processo de criação

Publicado em 15/12/2017
duas modelos usando peças jeans da marca Think Blue

No final de novembro, a estreia do documentário canadense RiverBlue (Rio Azul), dos diretores David McIlvride e Roger Williams, direcionou todos os holofotes para as indústrias têxteis, principalmente para as responsáveis pela fabricação de jeans. O objetivo era examinar o impacto dessa cadeia nos rios da China, Índia, Bangladesh, Indonésia, Zâmbia, Inglaterra e EUA.  

Hoje, só para se ter uma ideia, para fabricar uma calça jeans são usados cerca de 11 mil litros d'água, o equivalente a dois caminhões pipa. E quando não há um sistema de reutilização, todos os corantes tóxicos utilizados para a fabricação das peças são despejados nos rios.

O filme mostra as consequências devastadoras, tanto para o meio ambiente, com a morte de diversos rios, quanto para as comunidades, que utilizam essa água para as tarefas diárias e também para se alimentar. 

Esses, entre outros problemas do processo produtivo da moda, motivaram a designer carioca Mirella Rodrigues a investir em uma marca mais consciente e ética. Dessa forma, há dois anos nasceu a Think Blue, uma label inovadora de upcycling, que aposta no design para criar coleções com jeans descartados.

A ideia surgiu quando Mirella retornou de Londres em 2013 para dar continuidade à faculdade de design de moda, no Rio de Janeiro. "Escolhi o jeans por conta de sua resistência e durabilidade, além de poder ser trabalhado e explorado de inúmeras maneiras. No período da faculdade tive a oportunidade de fazer experimentos e testar técnicas artesanais, o que foi extremamente importante para a criação da marca", revelou ao Sou Moda.

Mirella garimpa calças, camisas e outras peças jeans em brechós e bazares beneficentes. O processo demanda tempo e olhar afiado. "Faço a curadoria, sentindo a qualidade do jeans e a gramatura. É um trabalho de tato", explica.

A designer não aceita material da indústria, para provocar menos impacto possível ao meio ambiente. "Se eu aceitasse material de uma tecelagem, por exemplo, eu teria que amaciar esse jeans, que é um tecido muito rígido. E eu não quero passar pelo processo de lavanderia, onde acontece o maior desperdício de água", afirma Mirella, que conta usar apenas quatro litros e meio para cada uma de suas peças. 

Adotando o conceito slow fashion, é ela quem higieniza, desfaz cada costura - transformando o antigo jeans em “tecido” - e, por fim, faz o corte das peças. Já os processos de modelagem e costura são feitos por dois parceiros da marca. "Eu costumo trabalhar com pessoas autônomas, que são donas do trabalho delas e que cobram o preço que elas acham justo", conta.

Mirella esclarece o processo de produção de suas peças e até fornece os valores do trabalho. "Uma calça já chegou a levar nove horas para ser costurada, um trabalho minucioso, que precisa ser valorizado. A costura de cada calça pode custar até 140 reais, pagos ao alfaiate. As pessoas acham caro, mas é a forma que eu escolhi de trabalhar, mais ética, consciente e com mão de obra justa".

A designer transforma o jeans e cria peças completamente novas, como vestidos, camisas, calças e coachs, tudo feito com trabalho de design em módulos, o que facilita, por exemplo, a reforma das roupas. "Se acontecer algum tipo de mancha ou danificado em alguns dos módulos, nós trocamos o recorte", afirma. 

A fim de incentivar que as clientes não descartem a roupa, a empresa ainda criou um auxílio pós-compra. "Fornecemos ajuste, conserto ou qualquer modificação sem nenhum custo, de forma vitalícia."

As coleções da Think Blue são comercializadas no site da marca e entregues para todo o Brasil.  

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação/Think Blue