Por que é preciso se conhecer para ter estilo

Visagistas contaram como o olhar para dentro empodera

Publicado em 25/08/2017
Estilo: o autoconhecimento é mais importante do que você imagina

O ano de 2017 registrou, pela primeira vez, a superação na busca do Google por cabelos cacheados em relação a cabelos lisos. E mais: nunca antes na história da ferramenta de pesquisa se procurou tanto pelo termo "transição capilar". Esses dados revelam que as mulheres estão se aceitando e procurando as melhores formas para assumir suas verdadeiras origens, deixando de lado padrões de beleza tão enraizados na sociedade.

E é justamente nessa linha da autoaceitação que atuam os visagistas, profissionais que trabalham com o estilo das pessoas a partir da harmonização de diversos aspectos da vida de cada um, como o dia a dia e a personalidade.

Para eles, não é somente o formato de rosto que define um corte de cabelo, ou o de corpo que vai revelar o que a pessoa deve vestir. A história dela é levada bastante em conta - e é somente depois que ela se aceitar assim, como é, que vai poder definir o seu próprio estilo.

"Eu acredito que nós somos a soma das nossas experiências, e o estilo, de certa forma, é a tradução de tudo isso em imagem. O que falta, na maioria dos casos, é entender como olhar para esse repertório e externalizar de uma forma que realmente faça sentido para a pessoa", coloca a consultora de estilo Érica Minchin.

Ela, que também apresenta a série no YouTube Histórias de Guarda-roupa, e a cabeleireira Sabrinah Giampá, do salão Garagem dos Cachos, conversaram com o Sou Moda sobre como o autoconhecimento é a chave para uma verdadeira libertação - não só do estilo, mas completa. 

Tanto é que, para Sabrinah, "o importante é aceitar que cada um tem a sua beleza - então por que tentar atingir um padrão inatingível se você pode valorizar aquilo que você tem de bom?".  

A seguir, você confere os relatos delas sobre como é importante deixar de lado opiniões irrelevantes e desconstruir padrões para chegar à sua verdadeira essência e, aí sim, rever o guarda-roupa, o corte de cabelo e fazer as pazes consigo mesma.  

Tudo começa quando nos entendemos

Estilo: o autoconhecimento é mais importante do que você imagina

Érica conta que, para fazer a pessoa enxergar dentro de si mesma, ela faz um verdadeiro resgate à história da cliente durante a consultoria. "Há algum tempo, eu comecei a perceber que a forma como o estilo e a autoimagem se constituíram ao longo da vida era muito importante para o resultado do processo. Hoje, eu investigo isso desde a infância, por meio de diversos questionamentos e exercícios diversos que envolvem fotos, exercícios de autoaceitação, experimentos em loja ou no armário".

Sabrinah também destaca que, no seu salão, uma grande transformação ocorre somente quando a cliente está preparada para recebê-la - e isso começa lá de dentro. "A mudança interna é você fazer os questionamentos, entender por que você não gostava do seu cabelo e estar disposta a aceitá-lo - que é aceitar você, sua verdadeira identidade". 

Chegar nessa fase é importante porque, quando ainda não chegamos nela, muitas vezes nos faltam consciência corporal e a ideia de nos vestir para nós mesmas, e não para agradar os outros. E são essas algumas das maiores dificuldades que Érica encontra nas mulheres que buscam a sua consultoria. 

"Nós não aprendemos a ver como é o nosso corpo e não sabemos como ele é de fato. É aquela história de ver que não somos a mulher na capa da revista, mas não saber exatamente que mulher nós somos, quais as nossas qualidades, de que forma elas podem ser bonitas também", ilustra a visagista. "Também tem gente que acha que está se vestindo para si, mas na verdade é por outra pessoa. E ok, vivemos em sociedade e o outro conta, mas é importante saber quem é esse outro e se a opinião dele importa ou se estamos só absorvendo crenças que não são nossas e desconectando do nosso reflexo no espelho por causa disso".

E nos aceitamos

Estilo: o autoconhecimento é mais importante do que você imagina

Em relação aos cabelos, a influência dos outros pode ser ainda mais forte, afinal, a aceitação dos fios está relacionada não só a uma questão estética. Para assumir o cabelo natural, por exemplo, muitas vezes é preciso estar preparada para passar por cima de bastante coisa, como o preconceito em casa e no mercado de trabalho. 

"Para mim, quando a mulher assume o cabelo natural ela está fazendo as pazes consigo mesma. Ela está assumindo a sua identidade, não é só vaidade", opina Sabrinah. "A mulher também vai contra o racismo, atrelado ao cabelo enrolado, e o machismo, que é o cabelo comprido e liso, muitas vezes associado à feminilidade e à sensualidade - porque, para chegar ao cabelo natural, às vezes é preciso cortar bastante", comenta.

Para Sabrinah mesmo foi um longo processo até chegar à aceitação dos cachos, como mostra a foto acima. Assim como muitas mulheres, ela demorou anos até descobrir a beleza do seu cabelo natural, história que ela conta em O Livro dos Cachos, lançado pela Editora Paralela. Em seu blog Cachos e Fatos, a cabeleireira, que também é jornalista, destaca relatos de clientes que passaram pelo mesmo processo transformador e ainda reúne informações sobre cuidados com o cabelo cacheado.

Ela ainda destaca que nada precisa ser permanente. Como o nosso exterior reflete o interior, ao passarmos por mudanças, o cabelo e as roupas podem - e devem - sofrer interferências também. "O estilo de vida, a profissão, tudo isso influi para criarmos a imagem mais adequada para essa pessoa transmitir naquele momento".

Como exemplo, Sabrinah coloca que se o atual momento de vida da pessoa lhe confere uma rotina agitada, um cabelo curto pode ser mais interessante pelo menor tempo de dedicação exigido. "E passamos por mudanças, e às vezes para cada fase da vida você precisa de um corte de cabelo diferente". 

Autoconhecimento que empodera

Estilo: o autoconhecimento é mais importante do que você imagina

Érica (foto) completa que "tudo o que carregamos comunica alguma coisa", o que vale também para as nossas roupas, que vão carregar uma mensagem para os outros e para nós mesmas, através da imagem que vemos refletida no espelho. Por isso, quando elas são escolhidas levando todo o autoconhecimento em conta, o resultado faz toda a diferença

"Quando essa imagem é construída de acordo com a nossa essência, nossos gostos, personalidade, estilo de vida e objetivos, nos sentimos seguras, confiantes. Muita gente acha que o vestir é o ato de colocar coisas. Mas, se trabalhado direito, ele pode ser o ato de revelar aquilo que a gente carrega de mais importante e profundo", comenta a consultora. 

O resultado de tudo isso? Não é difícil chegar nessa resposta: afinal, quando tudo se comunica bem, dentro e fora, coisas boas acontecem. "Uma menina que veio no salão alisava o cabelo desde os três anos. Quando ela viu o cabelo natural, falou 'como o meu cabelo é bonito!', e isso mudou a autoestima dela. Ela não tinha nem foto no perfil do Facebook, e passou a postar e até conseguiu um emprego em uma área que ela queria", conta Sabrinah. "Fazer as pazes com você mesma e assumir a sua identidade acaba atraindo coisas boas para a sua vida, porque você está bem com você", finaliza a cabeleireira. 

Por Luciana Faria

Fotos: Arquivo pessoal/Reprodução/YouTube