Maibe Maroccolo resgata e compartilha as cores da natureza

Mattricaria desenvolve pigmentos naturais para tingimento de tecidos

Publicado em 12/03/2018
Maibe Maroccolo designer da Mattricaria

Urucum, açafrão, espinafre, barbatimão, romã, acácia, jatobá, jurema, mangaba e catuaba são plantas brasileiras usadas na alimentação ou como base para fabricar produtos medicinais. Mas, nas mãos da designer brasiliense Maibe Maroccolo, mestre em Desenvolvimento Sustentável pela London College of Fashion, as matérias-primas também ganham novas finalidades. A empresária, à frente da Mattricaria, desenvolve corantes e pigmentos naturais para tingimento de tecidos.

Apesar de não ser uma técnica realmente nova - uma vez que tribos e comunidades já usavam folhas, frutas, raízes e cascas para pintar o corpo e tingir roupas -, Maibe vem ressignificando a prática. A empresária resgata esses saberes ancestrais a fim de promover mais consciência e tornar a prática mais acessível. Para isso, ela fornece cursos, consultorias e ainda comercializa kits com pigmentos naturais para quem deseja tingir roupas e acessórios em casa, substituindo os corantes sintéticos. Em entrevista ao Sou Moda, Maibe conta como surgiu o insight do seu negócio e a importância de repensar as práticas sustentáveis no país.  

Antes de fazer o mestrado em Londres, Maibe passou por toda a cadeia produtiva de moda no Brasil: chão de fábrica, marketing e produção. Insatisfeita com os processos de produção da indústria têxtil, a empresária decidiu passar um tempo na Inglaterra, inicialmente só para estudar inglês. Dos seis meses que planejou ficar, acabou permanecendo por seis anos.

"Foi no mestrado que eu tive uma proximidade com a sustentabilidade e o consumo consciente pensado como um coletivo: onde se questiona a origem das roupas, como são produzidas, quem as produziu, quais as condições de trabalho e o impacto disso no meu ambiente. Na Inglaterra já existe um conceito de sociedade e coletivo muito forte. Mas aqui ainda discutimos como reaproveitar resíduos, enquanto, na verdade, é preciso pensar em como evitar gerá-los", afirma. 

Entre tantos meios dentro da cadeia de produção sustentável, Maibe se encantou com o tingimento natural. Posteriormente, descobriu que a habilidade já era praticada na família há décadas. "Enquanto eu pesquisava sobre o tingimento sintético -  que gera poluição na água e um impacto negativo em comunidades que vivem à margem de rios -, eu comecei a recordar a relação da minha família com a natureza. Lembrei da minha mãe, que tingia o cabelo com casca de cebola. Da minha avó, que tingia os lençóis para fazer roupas para as suas nove filhas. Percebi que o tingimento natural já existia na minha vida há muito tempo. Entretanto, foi preciso que eu me deslocasse para o outro lado do mundo para me reconectar com esses ensinamentos", completa. 

tingimento natural

No retorno ao Brasil, Maibe se dedicou a pesquisas e mapeamento de plantas tintórias junto a cooperativas de artesãos têxteis no Distrito Federal, Goiás e Minas Gerais que utilizam receitas tradicionais de pigmentos e tintas naturais. Logo foi cativada pela infinita cartela de cores oferecidas pela natureza. No início, passou a produzir roupas, mas percebeu que as pessoas tinham ainda mais interesse no processo de tingimento. Foi aí que ela encontrou uma oportunidade de negócio justa e pouco investigada no país. 

"Sinto que as pessoas estão buscando se conectar com atividades manuais, como tingimento, bordado, macramê. Todo esse movimento 'faça você mesmo' é um processo empoderador, que promove uma reconexão das pessoas com as suas habilidades".

Kits e cursos

Maibe passou a oferecer cursos por todo o Brasil - presenciais e online -, além de disponibilizar mentorias, consultorias, serviço de tinturaria e kits de pigmentos naturais.  A Mattricaria comercializa pacotes de pigmentos extraídos da cúrcuma, catuaba, romã, mangaba, ruibarbo e jurema. Os corantes devem ser misturados com água quente e combinados com tecidos naturais, como algodão e linho, a fim de produzir roupas, almofadas e bolsas.

Mas a intenção é expandir ainda mais as cores oferecidas nos kits. "Quero lançar mais seis cores, mas para isso estou desenvolvendo uma máquina, com a ajuda de um engenheiro, para triturar cascas e transformá-las em pó", explica a empresária, que prepara ainda um oficina de imersão que ocorrerá no seu espaço em Brasília. 

Riquezas do Brasil

No Brasil, existe uma grande diversidade de plantas tintórias, por isso Maibe acredita no potencial desse setor. "A nossa cultura é de supervalorizar as coisas que estão fora, no exterior, mas o momento é de valorizar a nossa cultura e perceber que tudo o que precisamos está aquiTrabalhar com sustentabilidade no Brasil é uma grande oportunidade, porque a maioria das coisas ainda não foram feitas, não estão prontas, não têm estratégias ou caminhos. É ótimo, porque quem iniciar na área será pioneiro."

A empresa não produz plantas ou flores, e para angariar as matérias-primas, a empresária tem parcerias com mercados locais e raizeiros. "São produtores rurais que me fornecem plantas e raízes com propriedades medicinais, como o eucalipto, calêndula e urucum", aponta.

Além disso, ela também tem o hábito de observar a natureza e fazer testes com plantas que estão ao seu redor. "Existem flores tintórias que estão do outro lado da rua e que fornecem cores lindas, como é o caso da tulipa africana (popularmente conhecida como xixi de macaco). O seu marrom é deslumbrante e entrou para a minha cartela de cores. Consigo oferecer essa cor para os meus clientes de junho a dezembro, época da florada."

O respeito ao tempo da natureza faz parte da filosofia da empresária, a qual gosta de salientar que o tingimento natural faz parte de um estilo de vida. "A marca é um convite para a gente desacelerar a vida, se conectar com as plantas, cores e com a natureza. Por isso, respeitar esse processo é importante.

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação