Fernanda Kikuchi ensina a arte da estamparia pelo Brasil

Designer desenvolveu técnica simples de pochoir para se fazer em casa

Publicado em 20/04/2018
Fernanda Kikuchi

Tingir, pintar e costurar nunca estiveram tão na moda. Para quem tem habilidades manuais e valoriza as técnicas handmade, produzir roupas em casa, além de ser um hobby prazeroso, é uma forma de criar peças personalizadas, ganhar um dinheiro extra e ainda estar alinhado às causas sustentáveis. O Sou Moda já contou a iniciativa da designer brasiliense Maibe Maroccolo, que fabrica pigmentos naturais e vende em formato de kits para interessados tingirem as suas próprias roupas de forma natural.

Também já falamos sobre as jaquetas jeans da Céu Handmade, pintadas a mão, que  se tornaram uma verdadeiro hit. A empresa produz e também ensina a confeccionar desenhos, fornecendo sobrevida às peças esquecidas no guarda-roupa. Dessa vez, o Sou Moda conversa com a designer Fernanda Kikuchi, que criou uma técnica simples, baseada no pochoir, e ministra curso para quem deseja aprender mais sobre estamparia. A artista conta como surgiu a ideia e o que a motivou a se dedicar à arte:

Handmade como filosofia de vida

fernanda

Muitos profissionais incorporam o handmade como uma filosofia de vida e de trabalho, muitas vezes para nadar contra a velocidade e a produção em larga escala, que guiam o mercado. Com Fernanda, que sentiu na pele a rotina árdua do chão de fábrica, a história não foi diferente. "Para reunir o dinheiro para a mensalidade da faculdade que desejava ingressar, precisei trabalhar durante três anos em fábricas no Japão. Eram 12 horas por dia em pé", lembra. 

Quando se formou, a designer se deparou com mais um desafio. "Depois da experiência, me incomodava o fato de manter o emprego do futuro, que é basicamente ficar no computador o dia inteiro", lembra. "Foi quando eu consegui um estágio numa oficina de tipografia de impressão manual, então percebi que existia uma alternativa: trabalhar  com as mãos, sem ficar trancada em um escritório o dia inteiro."

A inquietação da designer, a impulsionou a buscar diversos cursos dentro e fora do Brasil. Neste período, ela descobriu a estamparia. "Na estamparia, me senti mais livre para criar.  Eu podia fazer os meus próprios desenhos! Dessa forma, me aprofundei em alguns cursos e desenvolvi uma técnica mais simples para que eu também tivesse a oportunidade de ensinar."

Técnica de Pochoir

A técnica desenvolvida por Fernanda foi inspirada no pochoir, que foi muito utilizado no Japão, há séculos, na produção de desenhos em quimonos. No entanto, foi na França que a prática se popularizou. A reprodução de imagens era feita a partir de uma análise da composição das cores e confecção de várias máscaras desenhadas e alinhadas para a impressão de cada tom.  

"Essa foi uma técnica muito disseminada em Paris, na aplicação das cores em superfícies: ilustrações de figurinos de moda, desenhos têxteis e elementos de arquitetura", explica a designer. "Em 2017, viajei para a França, e lá tive contato com cursos, livros, lojas de arte e uma porção de materiais que não estão disponíveis no Brasil", explica. "Naquele país, a prática ainda é muito comum e até mesmo ensinada para as crianças na escola."

Fernanda então reuniu todo o conhecimento que havia adquirido sobre a técnica para criar um curso artisticamente acessível e com ferramentas econômicas: máscaras de folhas de acetato, tinta cerigráfica e rolinho de espuma. "O que eu acho legal da minha técnica é que cada um pode criar, mesmo sem saber desenhar, e assim produzir a sua própria estampa, a partir de referências do seu dia a dia, sem ficar refém do que está no mercado."

Segundo a especialista, a tinta usada na técnica é à base d'água e não leva solvente, por isso não é tóxica. Fernanda também se preocupa com os tipos de tecido que são usados em seu curso. "Uso apenas tecido de algodão descartado. Tem muito tecido que vai para o lixo ou é vendido 10 vez mais barato só porque tem uma manchinha, por isso é preciso ficar de olho."

Para a artista, a ideia de que pintura feita a mão é uma atividade destinada à terceira idade está no passado. "Tem muitos estudantes de moda interessados em abrir a própria marca, pessoas que estão buscando novas profissões, porque estão cansadas de trabalhar fechadas em escritórios", explica. "Eu também ministro aulas para pessoas que estão desempregadas e utilizam a técnica para produzir peças como o próprio ganha pão." 

Os tecidos podem ser utilizados para confeccionar roupas, acessórios e também como material de encadernação. "Percebi que era mais legal ver as pessoas produzirem do que comercializar os meus produtos. Acho que isso é ir contra o sistema e também não deixar a arte elitizada", explica. "Claro que não é uma solução, mas apenas uma crítica - um caminho contra a produção em massa das indústrias e fábricas."  

Por Mayhara Nogueira

Foto: Divulgação