I <3 sneakers: atelier transforma tênis usados em novos

De forma sustentável, a Sujo dá um upgrade no seu acessório de estimação

Publicado em 21/06/2018
tênis Vans quadriculado de preto e branco

Não tem como negar, 2018 é o ano dos sneakers. Um mercado bilionário, como constatou a The Business of Fashion, que anunciou aumento de 10% nas vendas globais, atingindo 3,5 bilhões de euros em 2017. O fenômeno ganhou até um termo, “snakerisation”, uma tendência absorvida até mesmo pelas marcas de luxo, que toda semana lançam modelos que se tornam sinônimo de desejo.

A Balenciaga, campeã em emplacar hits, foi quem expandiu o conceito, até então focado em nicho. A casa espanhola resgatou o modelo “daddy shoes”, um formato clássico dos anos 1990, que hoje se tornou um dos acessórios favoritos dos amantes de streetwear. O tênis, que nos Estados Unidos não ultrapassa os 1 mil dólares, no Brasil é revendido, no mercado paralelo, por mais de R$ 7 mil. E parece que a febre dos sneakers não deve parar por aí. 

Aproveitando o hype, as marcas estão apostando pesado em collabs com celebridades e atletas, para estimular ainda mais as vendas - o que virou argumento para o "quanto custa o outfit?", vídeo polêmico que circula no YouTube. Esse comportamento muitas vezes passa a se tornar economicamente inviável para a maioria das pessoas e, de modo geral, nada sustentável.

Incomodados com esse excesso de consumo e de impermanência, o designer Pedro Araujo e a radialista Gabriela Borges, de São Paulo, abriram a Sujo, uma marca cool, especializada em restauração e customização de sneakers. Em entrevista ao Sou Moda, Pedro conta como a marca vem contribuindo com a ampliação da consciência com o reuso dos calçados, ao evitar o desperdício de materiais fazendo uso dos já existentes. Além disso, ele também ressalta como é possível resgatar e valorizar a profissão de sapateiro, e de quebra, atualizar o mercado.

restauração e customização de tênis

A Sujo foi inaugurada há menos de sete meses, e já vem ganhando espaço nas redes sociais. A ideia começou a ser cultivada após uma longa experiência de Pedro no mercado de calçados e a partir de uma compra frustrada. "Trabalhei por muito tempo prestando serviço de design para grandes marcas de tênis, fiquei imerso nesse universo. Um dia caí na tentação e comprei um desses modelos caros, mas acabei me arrependendo muito. O valor não justificava o material, a forma e qualidade", lembra. 

Como sempre gostou de construir objetos, trabalhando especialmente com design de produtos, passou a questionar o mercado e também o seu propósito. "A cultura do sneakerhead - de que cada tênis tem a sua história -, apesar de legal, quem vive na área de brand, sabe que muita coisa é inventada para vender mais. Eu fazia trabalhados com o objetivo de criar a necessidade das pessoas de consumir coisas, as quais geralmente não eram de boa qualidade. Nos EUA, pode ser que seja o preço é até mais acessível, mas no Brasil a realidade é outra. Aqui, a garotada está consumindo objetos de valores absurdos, e é meio preocupante."

Outra necessidade particular também contribuiu para que o negócio ganhasse forma: a falta de sapateiros que se dedicassem à arte de restauração de tênis"Eu costumava levar o calçado para arrumar, mas sem sucesso, porque me diziam não ter solução. Os profissionais não estão acostumados com o tipo de material, processo de costura ou ferramentas", comenta.

"Sujo" só no nome

Pedro explica que o atelier criativo faz serviço completo: pintura, costura e troca solados - dos mais variados tipos e marcas de tênis. Ele explica que grande parte do trabalho é digital. O cliente manda a foto do tênis, de todos os ângulos, e então é possível prever qual será o trabalho de oficina. Dependendo do pedido, também são feitas ilustrações, prevendo o resultado final da customização. 

"Vem muita coisa detonada, dificilmente aparece algo simples, mas ainda não encontramos limitações. Já fizemos trabalhos complexos, como reconstruir todo o calçado. Neste caso, tivemos que encontrar cada peça e repor como quebra cabeça. Foi um processo de grande aprendizado", afirma.

A ideia é resgatar um tênis de estimação e, de quebra, fazer o cliente economizar bastante. Recentemente, a empresa restaurou um modelo quadriculado, preto e branco, da marca Vans. A título de curiosidade, o modelo novo, que custava R$ 600 reais na loja, foi restaurado por 25% deste valor. "O solado estava derretido e a pintura gasta. Foi necessário refazer cada quadradinho. Ficou com cara de novo", conta o designer. O preço do trabalho custa a partir de R$ 80 reais e nunca ultrapassou R$200.

Impacto econômico

Para ajudar no trabalho, a empresa conta com o know-how de três sapateiros da comunidade, com os quais Pedro troca aprendizados e experiências. Todo trabalho criativo (e parte do manual) é feito no estúdio, e a outra  parcela nas oficinas destes profissionais. "Chamamos de repasse justo o valor que damos ao trabalho de nosso sapateiros. Existe uma troca de conhecimento que vai além, pois conseguimos ampliar os horizontes do trabalho que é executado por eles e proporcionar um serviço que antes não era nem imaginado, muito menos procurado", aponta.  

Mas os desafios ainda são enormes, uma vez que o mercado não cresce no mesmo ritmo da consciência ambiental dos novos consumidores. Uma das principais dificuldades da marca, segundo Pedro, é encontrar os materiais para restaurar os calçados. No caso do solado, os fabricantes não vendem os materiais originais e os disponíveis têm design antigo e genérico. Dessa forma, a marca tem como objetivo estimular que os fornecedores ofereçam novas soluções. "Temos visitas agendadas em fábricas, as quais fornecem materiais para grandes marcas, para que se convençam desse novo momento e se atualizem."

Gerando menos impacto ambiental

Outra preocupação da empresa é o controle de geração de resíduos. Por isso, cada processo é pensado priorizando principalmente materiais naturais. "Para limpeza, usamos produtos à base de óleo de coco, casca de laranja e banana. Também não usamos máquina de lavar. Estamos substituindo, em quase todos os trabalhos, a cola forte por cola à base d'água. Além disso, compramos retalhos de couro e tecidos. A ideia também é estimular os distribuidores a adotar mais soluções sustentáveis. O próximo passo é fazer campanha com as grandes fábricas. É um processo, todo dia tentamos mudar."

Por  Mayhara Nogueira

Foto:Divulgação/Sujo