Antuérpia, uma cidade na vanguarda da moda europeia

Local é considerado casa de tradição têxtil e de Martin Margiela

Publicado em 05/07/2017
Antuérpia, uma cidade na vanguarda da moda europeia

Desde a Idade Média, a Antuérpia, na Bélgica, foi um centro cultural, financeiro e intelectual importante para a Europa. Com suas inúmeras indústrias têxteis, a cidade propagava refinamento artístico e impulsionava o comércio do mercado de trajes. Do século XVI ao XIX, apesar da Antuérpia estar em uma ótima rota, ter um porto em plena atividade e inúmeros comerciantes, Paris ainda era o centro nervoso da alta-costura.

Na metade do século XX ela começou a despontar no cenário. A cidade, que hoje abriga uma das mais vanguardistas universidades de moda do mundo, passou a fabricar designers questionadores. Por lá nasceu o estilista Dries van Note, e também passaram Martin Margiela e Raf Simons.

Séculos de tradição

Peter Paul Rubens pinta a baronesa Alethea Talbot

Durante a "Era de Ouro" (cerca de 1520 a 1585), Antuérpia foi um dos pólos econômicos mais importantes do mundo, conhecido por tecelagem e acabamento, fabricação de renda e tapeçarias. Os valores culturais, sociais e econômicos das roupas tinham tal importância para a cidade, que no século XVI foram registrados 524 alfaiates e fabricantes de metais, um número cinco vezes maior em relação aos padeiros e açougueiros que trabalhavam na cidade.

No século XVII, o pintor flamengo Peter Paul Rubens, que vivia na cidade, demonstrava a complexidade da confecção, estrutura e silhueta em seus quadros. Com ajuda das cores e signos das roupas, ele apontava lealdade política, observância religiosa e origens de seus personagens.

Universidade de moda

Departamento de Moda da Real Academia de Belas Artes

A Royal Academy of Fine Arts de Antuérpia é uma das academias de arte mais antigas da Europa, fundada em 1663 pelo pintor David Teniers. O espaço abriga também o Departamento de Moda, considerado um dos mais importantes e influentes do mundo. A fama se deve a combinação de treinamentos rigorosos, tradição, design com ênfase na criatividade e individualidade do estilista.

A academia foi responsável em formar estudantes que revolucionaram a história da moda na década de 1980, os chamados The Anwerp Six. Todos os anos, no mês de junho, durante os desfiles de graduação, os olhos do mercado da moda se voltam para a universidade, onde já se formaram nomes expressivos. 

Designers made in Antuérpia

Coletivo The Antwerp six revolucionou o mundo da moda

Nos anos de 1980, os designers belgas ganharam fama, ao lado dos vanguardistas japoneses - como o Rei Kawakubo -, por transgredir a forma de criar silhuetas, transcendendo os limites do corpo com roupas oversized, além de questionar completamente os padrões de beleza da época.

Nomes como Dirk Bikkembergs, Walter Van Beirendonck, Marina Yee, Dirk Van Saene, Ann Demeulemeester e Dries Van Noten formaram o The Anwerp Six, coletivo de ex-alunos da Departamento de Moda, que estrearam no London Fashion Week. Atualmente Dries Van Noten, com diversas lojas independentes pelo mundo, é um grande nome da moda belga. 

Outro nome importantíssimo que nasceu na mesma instituição, porém alguns anos antes, foi o ícone Martin Margiela. A figura mais secreta da moda - não há muitas fotografias do rosto do estilista - começou em 1988 por meio de uma abordagem conceitual. No entanto, o estilista foi muito mais além, ele desenvolveu roupas sem etiqueta, peças feitas em grandes dimensões, com forros e bainhas à mostra.

Ele também foi um dos primeiros a trabalhar com reciclagem e recuperação de materiais. Entre 1997 e 2003, Margiela assinou a direção criativa da linha feminina Hermès e mostrou ao mundo o que era design de luxo a partir de trajes minimalistas, funcionais e, acima de tudo, atemporais. Ele conseguiu mudar o pensamento do mercado sobre artesanato, comércio, autoria e inovação.

Outro expoente belga foi catapultado na Antuérpia, não porque estudou na universidade, mas porque estava no lugar certo e na hora certa: Raf Simons. Formado em design industrial, Simons, recebeu conselho de Linda Loppa, ex-diretora da Real Academia de Belas Artes, para montar a sua marca própria em 1995. De lá pra cá, ele foi de 2012 a 2015, diretor criativo da maison Dior, no qual protagonizou um documentário chamado Dior and I. Atualmente, assumiu a criação da Calvin Klein

MoMu

Duas vezes por ano, o Mode Museum Provincie Antwerpen (MoMu) apresenta uma nova exposição com base na coleção de mais de 25.000 peças. Este ano, Margiela - The Hermès Years apresenta trajes impecáveis, além de contar os bastidores do trabalho do estilista que revolucionou a casa de moda naquele período.

Margiela aplicou sua identidade vanguardista, trocando toda a exuberância e estampas - identidade da Hermès - para criar trajes com cartela de cores sóbrias, monocromáticas e silhuetas que proporcionassem conforto e discrição. Suas modelos se destacavam por usar manequins que chegavam até 42 e o seu casting era o mais eclético da época, com mulheres acima dos 50 anos. A mostra ficará em cartaz até 27 de agosto. 

Selo contemporâneo belga

Coleção de Heaven Tanundiredja

Assim como em todo o mundo, o Departamento de Moda da Antuérpia se internacionalizou a ponto de abrigar talentos de várias partes do mundo como os designers de jóias da Indonésia e Tailândia Heaven Tanundiredja e Ek Thongprasert, respectivamente, a designer de roupa feminina, Lena Lumelsky, nascida na Ucrânia e a coreana Minju Kim. Muitos deles permaneceram no local para montar suas marcas próprias. A cidade se tornou um verdadeiro celeiro para labs vibrantes e um prato cheio para quem gosta de novidade. 

Por Mayhara Nogueira, em Antuérpia

Fotos: Reprodução/Pinterest/Martin Margiela